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Leia 3 redações nota 1000 do ENEM 2025

Veja as 3 redações que alcançaram a nota máxima em 2025.

Leia 3 redações nota 1000 do ENEM 2025

Escrito por Prof. Raquel de Lima

Atualizado em 16 de Março de 2026

Conseguir nota 1000 na redação do ENEM é algo raro — e os números mostram isso: em 2025, apenas 8 participantes alcançaram a pontuação máxima, o menor total já registrado. No dia da prova, fatores como ansiedade e um tema fora do esperado acabam dificultando o desempenho até de quem estudou bastante.

Ainda que seu objetivo não seja fechar a redação com 1000 pontos, tirar uma nota alta já pode elevar muito suas chances de entrar na faculdade. E um dos jeitos mais inteligentes de se preparar é observar, na prática, o que deu certo: as redações nota 1000.

Pensando nisso, reuni 3 das 8 redações que tiraram nota 1000 no ENEM 2025. Vem ver:

Wellington Ribeiro

Na obra "Feliz aniversário, a escritora Clarice Lispector aborda, dentre outros aspectos, a realidade de exclusão vivenciada por grande parte dos idosos brasileiros, os quais, de acordo com a autora, só são lembrados por seus familiares em datas comemorativas. Ao transpor o viés literário, percebe-se a acentuação dessa problemática, a qual aborda a falta de perspectiva social perante ao envelhecimento existente no Brasil contemporâneo. À vista desse conceito, é ideal analisar o passado nacional e o descaso governamental como desafios para a plena longevidade da sociedade.

Diante desse cenário, nota-se que a dificultosa promoção de um futuro digno à terceira idade advém de um processo de desenvolvimento nacional pautado na exclusão socioespacial. Isso pode ser constatado, de forma evidente, pois o país, desde o período do Brasil Colônia, foi construído por práticas violentas (como a promulgação da Lei dos Sexagenários), as quais visavam à marginalização de escravizados com mais de 60 anos em detrimento da inserção respeitosa dessa parcela da população no cotidiano brasileiro. Nesse sentido, essa atitude segregacionista mascara, há gerações, a necessidade de reverter esse revés e naturaliza, nos dias atuais, o silenciamento desenfreado dos idosos, produzindo culturalmente a ideia de inferioridade desse grupo. Assim, torna-se inegável o contínuo retrocesso da nação a cerca do reconhecimento da velhice como importante e inevitável, à medida que a manutenção de raízes históricas degradantes existe.

Ademais, é fundamental ressaltar que a negligência estatal perpetua a aversão social ao inerente envelhecimento populacional. Essa questão se intensifica, na atualidade, ao passo que o Brasil não possui uma campanha nacional concreta e eficaz de estímulo à qualidade de vida da terceira idade. Tal panorama foi estudado pelo pesquisador Ruy Braga, o qual, a partir de uma perspectiva crítica voltada à realidade latino-americana, verbaliza que a ausência de um modelo assistencial inclusivo e socialmente comprometido permite o não reconhecimento dos idosos como integrantes ativos da sociedade. Sob essa ótica, o posicionamento do estudioso é válido, visto que políticas públicas ineficientes possibilitam a precarização do bem-estar da terceira idade, de modo a qualificar essa faixa etária como pouco importante para a edificação da nação - suprimindo o seu futuro salutar. Por isso, essa situação hostil precisa ser revertida.

É premente, portanto, uma medida que perpetue perspectivas positivas ao envelhecimento populacional. Logo, cabe ao poder Executivo Federal — mais especificamente ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania — fomentar o respeito à terceira idade. Tal ação ocorrerá por meio da criação do “Projeto Nacional Vida Feliz”, o qual engajará debates públicos — ministrados por idosos —, nos 5570 municípios brasileiros, a fim de desmistificar ideais advindos da colonização do Brasil e de protagonizar a atuação de pessoas idosas no combate direto e frontal à marginalização sofrida por elas, culminando na promoção da dignidade a essa parte da sociedade. Afinal, não é aceitável que, em um país democrático, a população envelhecida seja, como denunciado por Clarice, invisibilizada.

Caio Silva Braga


Em "O Karaíba", o autor indígena Daniel Munduruku traz narrativas dos povos originários no Brasil pré-cabralino. Nessa obra, ele retrata elementos característicos das culturas e dos costumes das comunidades tradicionais, como o respeito aos mais velhos e à sua sabedoria. Nesse contexto, é nítido que a perspectiva dos personagens do livro não reflete a forma como a sociedade brasileira enxergou o envelhecimento ao longo do tempo, tampouco as tendências mais modernas disso.

Historicamente, no Brasil, envelhecer é um privilégio, não um direito. Isso é evidenciado por estratégias de manutenção da ordem social implementadas pelas elites, como a promulgação da Lei do Sexagenário — uma das leis pré-abolicionistas, que libertava escravizados maiores de sessenta anos. Ao contrário do senso comum, que vê essa medida como uma conquista para eles, a historiografia entende que essa medida não tinha intenções reais de oferecer liberdade a essas pessoas, pois suas expectativas de vida eram baixíssimas. Nesse cenário, portanto, envelhecer não era uma oportunidade para todos os brasileiros, mas um privilégio de alguns.

Por outro lado, correntes contemporâneas de pensamento colocam os idosos e o envelhecimento em outras posições: de enfrentamento ao etarismo, de atividade física e econômica e de engajamento político e social. Um exemplo disso é o filme estrelado por Fernanda Montenegro, em 2025, "Vitória", em que a atriz interpreta uma senhora em uma comunidade periférica no Rio de Janeiro e expõe suas denúncias contra a violência e o tráfico onde vive. Sob essa óptica, a figura do idoso deixa um espaço de fragilidade e impotência e passa a assumir protagonismo de sua própria vida.

Dessa forma, tendo em vista as múltiplas perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira, é necessário que o Ministério da Educação, por meio de iniciativas de capacitação e autonomia para idosos — como o "projeto envelhecer" do Cin-UFPE, que os ensina a conviver no ambiente digital — atue na formação dessas pessoas para que resgatem sua independência bem.

Rodrigo Fortes

O filme "O agente secreto", escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, apresenta a Dona Sebastiana, uma carismática mulher idosa e dona do Edifício Ofir, que é um prédio em que refugiados políticos da Ditadura Empresarial-Militar do Brasil são abrigados. Nesse espaço, os moradores vangloriam a Sebastiana e a enxergam como a "guardiã" do local. No entanto, contrariando essa visão positiva da figura da velhice roteirizada por Kleber, para além das telas, a sociedade brasileira tem lido o envelhecimento de modo desrespeitoso e violento. Acerca disso, verifica-se que a mídia de massa e as famílias são as principais responsáveis por essa perspectiva etarista, o que compromete a saúde mental e a saúde financeira desse grupo oprimido. Logo, é preciso analisar a má influência midiática e a lacuna familiar nesse cenário cruel.

Sob esse prisma, culpa-se a influência negativa da mídia por tal mazela idadista. Afirma-se isso, pois diversas produtoras audiovisuais estereotipam a velhice em suas obras, prejudicando o estado psicológico de quem está nessa fase da vida. A esse respeito, o cineasta brasileiro Marcos Magalhães, em seu curta-metragem "Meow!", denuncia o fato de a indústria midiática moldar padrões de pensamentos dentro do corpo social. Frente a essa crítica cinematográfica, vê-se que a realidade do Brasil confirma tal denúncia, já que muitas são as emissoras e produtoras de televisão e de cinema que, em séries, em filmes e em novelas, retratam personagens idosos de maneira estigmatizada, ou seja, fora de papéis de protagonismo e dentro de enredos limitados ao "ser velho", isto é, ser frágil e "descartável", moldando a perspectiva acerca do envelhecimento dos telespectadores. Esse processo de construção da imagem do idoso na mídia vai de encontro à dinâmica de construção da imagem do jovem (geralmente, representado como protagonista, forte e essencial para a trama), afinal, o objetivo é atrair a audiência desse público, o qual costuma ser muito engajado nas redes sociais, gerando mais visibilidade às produções (com seus comentários) e, claro, mais lucro. Em efeito, a partir dessa visão de "descartabilidade" que a mídia molda, produz e reproduz, conforme alerta Magalhães, várias pessoas idosas, fora das telas, são vistas e taxadas como inúteis (uma espécie de "peso" para a sociedade), sofrendo violências verbais nesse sentido, as quais abalam seu estado mental e geram, muitas vezes, quadros depressivos.

Além disso, vale responsabilizar a postura familiar por esse triste panorama. Tal responsabilização é necessária, porque, infelizmente, é comum que famílias não possibilitem o letramento digital para os mais velhos, fragilizando sua saúde econômica. Seguindo esse raciocínio, Virginia Satir, psicoterapeuta referência nos estudos de terapia familiar, afirma que a família precisa assumir a sua função de formar e, sobretudo, reformar o indivíduo, para que ele seja, positivamente, inserido nas engrenagens sociais. Contudo, quando os idosos não recebem instruções quanto ao uso de aparelhos tecnológicos no ambiente doméstico, por exemplo, quanto à utilização do celular para acessar bancos digitais e à navegação nas redes sociais para identificar mensagens suspeitas (como de golpistas estelionatários), a afirmação de Satir é desconsiderada, haja vista a violenta perda da função "reformadora" citada. Nessa lógica, entende-se que essa conduta reprovável é motivada pela concepção equivocada (fomentada pelo discurso midiático supracitado) de que idosos não precisam "avançar" em seus conhecimentos, mas, na verdade, somente esperar pelo momento do seu "descarte" — a morte. Por conseguinte, ao se reforçar o contraste à ideia de Satir, o envelhecimento se torna uma fase, cada vez mais, excluída digitalmente, o que faz com que diversos idosos não consigam gerir as próprias contas bancárias (por desconhecerem o funcionamento dos bancos digitais) e, ainda, sejam vítimas de golpes virtuais (por não entenderem a dinâmica da internet), tendo, assim, a saúde financeira e o bem-estar afetados.

Portanto, a manipulação midiática e a falha familiar, frente às perspectivas acerca do envelhecimento no Brasil, devem ser combatidas. Com essa finalidade, as emissoras e produtoras de televisão e de cinema (por exemplo, a Globo e a Vitrine) precisam produzir séries, filmes e novelas em que personagens idosos são essenciais para a trama e não são estereotipados (como a Dona Sebastiana, em "O agente secreto"), por meio do substancial direcionamento de verbas a essas produções, a fim de reduzir a estigmatização da velhice na mídia. Ademais, as famílias têm de letrar digitalmente os idosos, com o objetivo de que eles não sejam excluídos do universo tecnológico. Desse modo, consequentemente, a visão respeitosa do envelhecimento, escrita por Kleber, será uma realidade.

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